Repensar financiamento e eliminar desigualdades de saneamento básico

O saneamento básico e o acesso a água é essencial para a promoção da paz e dignidade humana

[ Artigo publicado no jornal El País ]

Atualmente somos confrontados com muitas notícias sobre água, seja devido à escassez, às tensões sobre o seu uso ou devido às inundações e secas provocadas por fenômenos meteorológicos extremos. Até mesmo o saneamento entrou no vocabulário da área de políticas de desenvolvimento nos últimos dez anos, devido aos esforços concentrados para educar as pessoas sobre o impacto causado pela falta desses serviços na saúde e no bem-estar.

Sabemos que as políticas proativas em matéria de água são fundamentais para garantir a paz e a segurança e que o saneamento é essencial para a promoção da dignidade humana. A água e o saneamento são essenciais para atingir muitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) destinados a erradicar a pobreza, a fome e a promover a educação, a saúde e a igualdade de gênero. Por exemplo, metade dos atrasos no crescimento das crianças, que impactam a longo prazo o desenvolvimento mental e físico desses indivíduos, são relacionados a um saneamento deficitário.

Cidade no Estado de Alagoas MARCELLO CASAL JR (AG. BRASIL)

No entanto, não obstante a todos esses fatores, é raro a água, e muito menos o saneamento, serem uma prioridade no limitado financiamento disponível para as políticas de desenvolvimento.

As metas do ODS 6, dedicado à água e ao saneamento, exigem acesso a serviços de qualidade para todas as pessoas de todos os países, priorizando as necessidades das mulheres, das crianças e das pessoas vulneráveis. Alcançar a universalidade no acesso à água e ao saneamento exigirá um esforço global ao qual nenhum país poderá se eximir.

Há pessoas desfavorecidas em todas as sociedades, em todos os países – sejam eles ricos ou pobres. Nos países desenvolvidos ainda há pessoas – aquelas que vivem na rua, em comunidades nômades, os requerentes de asilo, entre outras- que nem sempre têm acesso à água potável e a banheiros limpos. Em muitos países em desenvolvimento, as pessoas que vivem na pobreza, as pessoas com deficiência, as pessoas que vivem em áreas rurais remotas ou em bairros informais não têm água e banheiros seguros e acessíveis.

Assegurar que todos tenham acesso a serviços básicos exigirá mais do que um simples aumento no financiamento. Devemos olhar para além dos argumentos econômicos como a “rentabilidade” ou as “economias de escala” para reconhecer os verdadeiros custos para o desenvolvimento humano sempre que deixamos pessoas para trás. Devemos repensar a forma como os orçamentos são concebidos: como devemos dar prioridade a certos grupos específicos da população e como direcionar os serviços, a fim de eliminar as desigualdades no acesso à água e ao saneamento.

Precisamos talvez deixar de lado os projetos de infraestrutura em grande escala, que constituem atualmente um elemento básico de desenvolvimento, para encontrar soluções mais locais. Os recursos financeiros podem ser mais bem gastos na formação ao nível local, na formação de profissionais de saúde e de trabalhadores comunitários junto das populações locais. Deve ser investido mais dinheiro nas ações de operação e manutenção, para garantir que os sistemas existentes continuem a fornecer os serviços essenciais.

Devemos deixar de lado a noção dos retornos econômicos rápidos sobre os investimentos. O custo de não ser capaz de educar as crianças, de não ter uma população saudável ou de uma força de trabalho improdutiva, supera amplamente o custo de garantir o acesso aos serviços. Devemos fazer tudo possível para investir na saúde a longo prazo e no desenvolvimento do nosso planeta.

Catarina de Albuquerque é presidente executiva da parceria Saneamento e Água para Todos (SWA)

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Saneamento e Água para Todos (SWA) é uma parceria global composta por múltiplos atores e com mais de 170 parceiros, incluindo governos, sociedade civil, doadores, bancos de desenvolvimento, setor privado, instituições académicas e outras agências. SWA trabalha para promover a liderança política e melhorar a prestação de contas no setor de água, saneamento e higiene para atingir a visão de saneamento, água e higiene para todos, sempre e em toda parte.


3 comentários em “Repensar financiamento e eliminar desigualdades de saneamento básico

  • 4 de junho de 2017 em 11:03
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    Precisamos de mais associações como a APS para conseguirmos acabar com a desigualdade do saneamento básico ,pois todos temos direito de viver com dignidade.

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  • 3 de outubro de 2017 em 03:42
    Permalink

    Precisamos de mais investimentos e de mais conscientização da população para uma mudança efetiva!

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