Deu na Folha de São Paulo: JBS planejava entrar no setor de saneamento

Danilo Verpa/Folhapress

Joesley Batista, da empresa JBS: grupo J&F planejava entrar no setor de saneamento
Com braços muito além do setor de alimentos, o grupo J&F, dono do frigorífico JBS, tentou em 2014 se aproximar de governadores de ao menos cinco Estados com o objetivo de entrar no setor de saneamento.

O delator Ricardo Saud, executivo do grupo, diz que a ideia era criar uma concessionária dos serviços de água e esgoto pelo país e que o grupo chegou a pesquisar as estatais mais deficitárias.

Segundo ele, as propinas pagas aos atuais governadores do Rio Grande do Norte, Robinson Faria (PSD), e de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD), tinham esse objetivo.

No Rio Grande do Norte, contou o delator, o plano da empresa era ousado: indicar um secretário estadual para coordenar a privatização.

Saud também disse que o grupo dono da JBS procurou as campanhas dos governadores Renan Filho (PMDB-AL), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS) e Fernando Pimentel (PT-MG).

“Dissemos, ó Fernando. Tem a Copasa [Companhia de Saneamento de Minas] lá, a gente sabe que é difícil, mas dá um pedaço da Copasa para a gente.”

Para Robinson Faria, disse ele, foram pagos R$ 10 milhões dentro desse plano, sendo parte em doação oficial. Saud afirma que o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), filho de Robinson, buscou dinheiro vivo.

A discussão sobre o assunto, falou o delator, ocorreu em um jantar em São Paulo em que esteve a mulher do deputado, Patrícia Abravanel, que é filha do apresentador de TV Silvio Santos.

“[Falamos:] sem nós, você não ganha a eleição. Mas tem que deixar firmado que nós vamos indicar um secretário de Estado, que vai acompanhar tudo de perto porque vocês não são confiáveis.”

 

Em Santa Catarina, relatou Saud, a aproximação contou com o apoio do secretário da Fazenda, Antonio Gavazzoni, que pediu demissão após a divulgação do teor da delação.

O delator disse que foram pagos R$ 10 milhões, sendo R$ 8 milhões em doações ao PSD nacional, e R$ 2 milhões em dinheiro vivo, entregues em Florianópolis.

Ele afirma que a J&F precisaria de facilitação nos editais porque não teria como competir com a OAS ou a Odebrecht. O projeto do grupo de Joesley Batista, porém, acabou não se concretizando.

Diante da crise nas empreiteiras em decorrência da Operação Lava Jato, o grupo desistiu da ideia porque “já tinha problema” o suficiente para enfrentar mais adiante.

Saud atuava como lobista da J&F e era uma das principais pontes entre o grupo e políticos. Ele diz que o grupo fez pagamentos a mais de 1.800 candidatos pelo país.

A privatização do saneamento também apareceu na delação da Odebrecht, mas em prefeituras do Estado de São Paulo. O ex-executivo Fernando Reis afirmou que a divisão ambiental da empreiteira procurou se aproximar de candidatos na eleição de 2012 porque tinha em vista os processos de licitação do setor nos municípios.

Onze Estados providenciam atualmente estudos de viabilidade que podem resultar em concessões nessa área.
OUTRO LADO

Os governadores citados pelo delator Ricardo Saud, executivo da J&F, negam que tenham recebido propina da empresa e afirmam que as doações do grupo foram legais.

Robinson Faria (PSD-RN) e seu filho, o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), dizem que os pagamentos não envolveram contrapartidas e que não há razão para para desconfiar da origem da doação ao PSD nacional. O governador sustenta que já desde a campanha disse que não iria privatizar a Companhia de Águas e Esgotos do Estado.

Raimundo Colombo negou “com veemência” as declarações de Ricardo Saud. “Pelo que eu saiba essa é uma empresa de proteína animal, boi, frango, tipo suínos, linguiça e não cabe tratar da Casan [Companhia Catarinense De Águas e Saneamento]”, disse, em entrevista.

O governador Renan Filho (PMDB-AL) disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que está revitalizando a companhia de abastecimento e que as contas de sua campanha foram aprovadas.

Fernando Pimentel (PT-MG) falou, também por meio de sua assessoria, que a declaração de Saud é “mentirosa e leviana”.

Reinaldo Azambuja, também via assessoria, disse que desconhece qualquer compromisso relacionado à privatização e que cancelou quatro termos de incentivos fiscais concedidos anteriormente à J&F.


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