Saneamento esquartejado: a consolidação da corruptocracia

Diante da ameaça de privatização da Cedae, principal operadora de saneamento do Estado do Rio de Janeiro, a mídia, e até alguns agentes políticos reconhecidamente desonestos, tem abordado o tema do esquartejamento do sistema de abastecimento de água de maneira absurdamente tola, para dizer o mínimo.

O que mídia e políticos sem noção de realidade defendem hoje é exatamente o que foi apresentado por Eduardo Cunha nos idos de 2004/05, ou seja, a “Cisão” entre produção e distribuição com a venda dos setores operacionais a várias empresas diferentes.

Para dirigentes ganharem dinheiro, muito dinheiro, seria uma coisa ótima. Certamente também seria um bom negócio para a mídia, que receberia rios de dinheiro em publicidade no decorrer do período em que as “Odebrechts” da vida operassem as concessões. Mas para a população e para o Estado do Rio de janeiro, seria uma tragédia de grandes proporções.

A proposta de Eduardo Cunha, devidamente abatida em pleno vôo pela Governadora da época, Rosinha Garotinho, é estapafúrdia por vários motivos, mas o principal deles é a ruptura do principal objetivo de qualquer estrutura de saneamento no mundo inteiro: a chegada da água na casa das pessoas.

Desde os primórdios da humanidade o homem buscou soluções para o abastecimento de água e consequente esgotamento sanitário exatamente para que as populações pudessem se constituir, abandonando o nomadismo e se fixando na terra. A tarefa maior do saneamento é tornar são o ambiente para que estes aglomerados populacionais tenham condições para se desenvolver. Este é o beabá do saneamento.

A concepção privatista, no entanto, revelando-se verdadeira ideia de jerico, separa a produção da distribuição, mercantilizando a atividade maior de levar água para a casa das pessoas. Seria o cúmulo do absurdo. Só uma mentalidade tosca, cruel e descompromissada com quaisquer dos aspectos de responsabilidade social e política seria capaz de conceber tamanha sandice.

Mas, para além da simples beocidade, há uma malandragem implícita neste projeto engendrado por essa gente que trata o Brasil como balcão de negócios.

Na equação produção estatal e distribuição privatizada os custos astronômicos de captação e purificação, o processo de potabilidade da água, ficariam para o contribuinte. Espertos, os dirigentes privados ficariam com a arrecadação, a parte lucrativa do todo. Além disso, é claro, sobraria para o poder público as contas e as dívidas acumuladas em todos esses anos de financiamentos captados para investimentos de peso destes mesmos sistemas e redes de distribuição que seriam docilmente entregues aos responsáveis privados. Mais que um negócio da China, um negócio do Brasil.

Essa gente trata o Brasil muito mal e vê sua população apenas como seres a serem explorados até o último esforço possível.

Eles sabem, é claro, que em condições normais o saneamento é aquilo que a doutrina econômica chama de “falha de mercado”, uma atividade impossível de ser exercida sob o ponto de vista da lucratividade. Contam, entretanto, com dirigentes políticos amigos que sustentariam o processo com dinheiro público e certamente seriam muito bem pagos, no ato e depois dele, para manter a negociata funcionando a pleno vapor.

A privatização do saneamento em si já seria uma tragédia. A separação de produção e distribuição, no entanto, com a entrega desta segunda a agentes privados, seria estupidamente a pedra fundamental de consolidação da moderna corruptocracia brasileira. Um bando de parasitas recebendo “dividendos propinatórios” das empresas privatizadas e o cidadão comum pagando a conta.


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