[ OPINIÃO ] Porque o povo não veio?

Na última vez em que o povo brasileiro se engajou em uma luta coletiva a coisa deu certo, pelo menos parcialmente. Foi a causa das DIRETAS JÁ! As Diretas não vieram, mas um bacalhau congressual amenizou a frustração.

Depois de 21 anos de ditadura, de 1964 a 1985, o povo achou que se mobilizando faria, finalmente, com que sua vez chegasse.

Tudo correu muito bem, em termos. Gente na rua, vitória no colégio eleitoral que soou quase que como uma eleição direta. E pronto.

Depois mataram Tancredo. Diverticulite calibre 38, dizem. Sarney assumiu e o Brasil ficou conhecendo o “Modus operandi” do PMDB.

O povo foi ficando gradativamente fora do processo. Aos pouquinhos, como manda o figurino.

Veio a constituição de 1988. Gênios de todos os níveis avocaram para si a tarefa de escrever a nova carta magna. Cada qual mais qualificado que o outro. Todos iluminados.

O processo era muito complicado para o povo entender, então ele foi arrastado um pouquinho mais pra longe.

De repente, não mais que de repente, tudo virou questão de economia. Juros, dívidas, amortizações, desonerações, privatizações, efeitos sazonais, enfim, atribuíram ao povo unicamente a tarefa simples e singela de pagar a conta.

Tudo era muito técnico, complexo, rebuscado, mas o importante mesmo era que o povo pagasse a conta.

Foi por essa época que os governos se desobrigaram completamente de administrar a coisa pública. Ao invés do bem coletivo, passou-se a advogar o bem do mercado, principalmente o de capitais.

Líderes políticos passaram a não mais brigar pelas demandas de povo, sociedade, país, nada disso. Todos tornaram-se agentes de mercado. E o povo, um mero empecilho aos negócios. Um incômodo reclamador contumaz.

Durante o processo, é claro, o Brasil degringolou. A morte da indústria ceifou empregos; a indústria das drogas aniquilou comércios e vidas humanas; o ato de viver tornou-se uma tarefa árdua, quase impraticável. Perigosíssima. E isso tudo dura até hoje. Está consolidado.

Agora, quando se deu a cassação do princípio da inculpabilidade pelo STF, ao decidir que qualquer um possa ser preso antes que o poder judiciário prove sua culpa, antes do processo transitado em julgado, estranha-se a ausência de povo nas ruas.

A decisão do STF é política, é claro, e dirigida a Lula. A própria presidente da corte suprema recebeu Temer, um réu, em sua residência oficial para tratar dos detalhes da trama. Nega os detalhes, é óbvio, mas o mundo sabe que foi isso.

A polêmica é boa e as possibilidades são absolutamente podres, mas o fato mais importante, no entanto, é que nada disso diz respeito ao povo.

Para o cidadão comum não existe primeira, segunda ou terceira instância, existe apenas a cadeia.

No andar de baixo todas as considerações de altíssimo coturno usadas para ilustrar as decisões de nossos doutos Ministros não servem para nada. É tudo bobagem.

O povo conta apenas com a polícia ou exército subindo as favelas por um lado e o tráfico descendo por outro. Ambas as forças se encontram no meio, com o povo servindo de colchão em pleno campo de guerra.

Fora das favelas, nas Baixadas da vida espalhadas por todos os cantos do país, ocorre a mesma coisa. Para o povo não há lei de verdade, não há escola de verdade, não há saúde de verdade, não há nada que não seja abstração.

Juízes, de um modo geral, quando encontram gente do povo em uma das partes em seu processo, condena logo. É como se o cidadão comum já fosse culpado antes de nascer. Para alguns juízes é pior ainda, é como se nem cidadãos fossem. É gente que serve só para pagar salários e auxílios moradia para os nobres.

Os serviços, planos e projetos sociais implantados nos últimos anos foram importantes, mas nada havia de concreto. Morreram a golpes de canetada porque tinham seus alicerces erguidos sobre a areia. De fato, tinha menos a ver com atender as demandas do povo do que com um projeto político de controle do voto via favores assistenciais. O povo na verdade estava fora, como sempre. Era apenas usado como “reserva de mercado”, por mais nobres que tenham sido as intenções de alguns poucos.

Nós últimos 40 anos, na prática, o povo foi sendo excluído de todas as decisões, a ponto de não haver mais nada em governos vigentes que possa atrair os seus interesses.

Para a casta abjeta de governantes que nos aflige, em tese, isso é bom. Não interessa a nenhum poderoso explicar o porquê de mais da metade do orçamento nacional (1,7 trilhão) ser entregue diretamente ao mercado financeiro enquanto não há dinheiro para escolas e hospitais. Basta combinar a taxa de retorno com quem recebe a grana. É bem mais prático. Nesses casos o povo só atrapalha.

Para o país, no entanto, o processo é deletério. A ausência do povo compromete a democracia. Se por um lado os mercadistas se apossam do poder público e colocam as riquezas nacionais a seu exclusivo serviço, tungando os cofres da nação, por outro, eclode uma casta ignorante, incapaz, agressiva e paredista com o intuito de tomar à força o poder que o povo não mais reivindica. O poder do qual o povo abriu mão por descrença, não identificação e, consequentemente, por falta de interesse. A ausência do povo deixa uma lacuna pela qual penetram vírus, vermes e outros parasitas. Estes geram uma doença social chamada fascismo. Como diz uma antiga canção, são vermes, mas pensam que são reis.

Dito isso, advogo que a única forma de curar a prostração popular estabelecida no Brasil é convocar o povo, com sinceridade, generosidade e responsabilidade para a construção de um grande projeto nacional que envolva a todos de verdade. Que contemple a todos. Que traga o povo para o olho do furacão e para o centro das decisões.

Para todas as nossas correntes de pensamento político, da esquerda à direita passando pelo centro, o povo tem sido mera retórica. Está na hora de deixar de sê-lo, à vera.

Aprendi com Fausto Wolff, um antigo amigo e companheiro que já viajou fora do combinado, que uma pessoa simples, uma senhora, por exemplo, uma camponesa de algum interior do Brasil, pode vir a ter mais cultura e sabedoria debaixo de uma unha do que uma multidão de catedráticos adestrados. E isso é uma verdade absoluta, a história nos mostrou isso.

Já fomos governados por seres obtusos, como Collor, e por intelectuais considerados brilhantes a seu tempo, como FHC.

Tivemos líderes populares, como Lula, e líderes com perfil burocrático, como Dilma.

Agora precisamos de um líder, ou um conjunto de líderes, que tenham a capacidade de se fazer confiável ao povo. E não apenas para angariar seu voto. Mas para trazê-lo para o jogo.

Quando se fala em povo sempre há, tanto entre coxinhas como entre mortadelas, aqueles que torcem o nariz. É compreensível. A tradição senhorial e escravocrata brasileira faz sempre com que as elites e seus discípulos, sejam de direita ou esquerda, menosprezem naturalmente tudo que vem do povo.

“Os jovens brilhantes estão em Lisboa”, repetiam sempre os algozes de Tiradentes quando alguém exaltava as qualidades de jovens brasileiros. Isso é absolutamente compreensível. A elite teme tudo que não seja espelho, em função disso odeia o povo. Mas o importante é compreender que o povo é o único elemento capaz de resgatar a dignidade de um país como o Brasil, com suas características e dimensões.

A dignidade nacional foi perdida nos palácios, por governantes legitimamente eleitos, nos últimos anos. Foi vendida a preço vil por senhores mesquinhos e para que isso ocorresse o povo, dono e senhor do poder, foi alijado do processo.

O Brasil foi esquartejado e vendido nas bancas de camelotagem internacional, e por isso chegamos a esse ponto.

Há quem olhe para o caos estabelecido no Brasil e enxergue prejuízos a Lula, a coisa porém é muito mais grave. Os ex amigos e agora algozes de Lula, inclusive os Ministros que o trucidaram, só enveredaram por esse caminho teratológico por se sentirem seguros pela ausência do povo. E eles têm absoluta razão.

O povo foi subtraído do processo há muito tempo e reivindicar a sua presença agora, na hora da dor de barriga, chega a ser risível.

Só um projeto político sério, responsável e nacional poderá ter o condão de trazer o povo para o centro do poder com o objetivo de redignificar o Brasil.

Mas tem que ser povo de verdade. O operário, a dona de casa, o camponês, o trabalhador comum, o homem e a mulher comum, o estudante, todos os cidadãos brasileiros que foram sorrateira e estrategicamente expurgados do processo político.

O Brasil só pode ser resgatado pelas mãos de gente que trabalha, ama, sonha, tem fome, sede e frio, sofre, se alegra, se arrepia, gente sem subterfúgios. Gente de verdade.

Por mais que as elites se irritem com isso, quem constrói um pais é seu povo. Não há nação sem ele. Por mais que se tente transformar o povo em “reserva de mercado”, isso é coisa de negocistas, não coisa de nação.

Vicente Portella
Presidente da APS


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