Privatização: é bom pra quem?

O jornal O Globo publicou uma matéria monstro sobre as mazelas do saneamento estatal ao mesmo tempo em que exalta, de maneira não tão velada assim, as “maravilhas” do que seria o saneamento sob o controle privado. E ainda tenta, por pura covardia, criminalizar ou colocar sob suspeita os salários dos profissionais da área, que em sua grande maioria não recebem sequer 10% do que a Globo paga aos seus jornalistas com dinheiro da publicidade oficial, ou seja, com verba pública.

Especula-se, por exemplo, que só o apresentador do Jornal Nacional tenha um salário em torno de 2 milhões de reais. Enquanto isso, a Globo considera “um absurdo” pagar 10/12 mil reais a um engenheiro ou a um administrador especializado com vários anos de experiência.

Mais uma grande farsa, é claro.

Não há um só registro na história, em qualquer país do planeta, de um caso sequer em que empresas privadas tenham atendido a demanda da população, em qualquer área, principalmente em serviços essenciais.

A iniciativa privada, como é absolutamente normal, visa lucro. Se ela oferece um serviço, cobra por isso. E cobra o suficiente não apenas para manter o negócio, mas também, é claro, para sustentar os sócios-proprietários. Isso em qualquer ramo de atividade.

A iniciativa privada não é filantrópica, não é composta por instituições que amparem os mais necessitados, por isso é uma tola ilusão considerar que a iniciativa privada investiria milhões em saneamento pelo simples regozijo de ver populações pobres beneficiadas com abastecimento de água e coleta de esgoto. Não é assim que funciona.

A iniciativa privada não busca a universalização do saneamento, ela busca lucro. Se a população da Baixada Fluminense, por exemplo, não tem dinheiro para pagar pelos serviços de saneamento – e efetivamente esta é uma realidade – então que não tenha saneamento. Essa é a ótica privada. Quem paga, leva. Quem não paga… um abraço.

A iniciativa privada não tem qualquer compromisso com a saúde de crianças pobres submetidas a um ambiente insalubre. E se essas crianças adoeceram, que busquem um hospital público, pois o hospital privado também só atende a quem paga pelos serviços. E caro. Muito caro. Nem um cumprimento é dado antes da assinatura de um cheque calção para garantir o primeiro atendimento ao paciente.

A empresa privada trabalha sempre em busca do lucro e aplica a lógica do custo-benefício: ganhar mais, fazendo menos. Por isso, ao contrário do que prega O Globo, o saneamento não pode ser privado.

Entendemos perfeitamente a ânsia por lucro das organizações Globo e sabemos que um processo de privatização lhe renderia alguns milhões de dólares, afinal de contas, no geral, o negócio valeria bilhões, assim como ocorre com nossa moribunda previdência, prestes a ser repassada aos bancos. Mas é bom realçar que depois de celebrado o processo de privatização os agentes da mídia não terão mais qualquer responsabilidade no processo. Seu papel mercantil estará cumprido e caberá apenas à população pagar a conta do ocorrido.

No final das contas correríamos o risco de pagar duas vezes, com nossos impostos. A empresa de saneamento privado exigiria, logicamente, que o Estado pagasse pelos serviços que ela se recusaria a prestar gratuitamente aos mais pobres. No mínimo o poder público seria obrigado a subsidiar os magnatas privados que tocassem o negócio.

Que ninguém se iluda: privatização é grana, só isso. Para a Globo é muito bom, uma magnífica oportunidade de negócios. Para a Trata Brasil, ong que representa os interesses do saneamento privado, seria ótimo. Dinheiro jogado avanço. Para a população, no entanto, seria uma tragédia.

Achar que o povo simples, trabalhadores e donas de casa, teria condições de pagar as faturas de uma empresa privada de saneamento ou é uma baita ingenuidade ou uma deslavada má fé.

Simples assim.

Vicente Portella
Presidente da APS


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *